Geopolítica segue como eixo central
A semana foi novamente dominada pelo avanço do conflito geopolítico, que deixa de ser tratado como um evento pontual e passa a ser interpretado como uma guerra prolongada, ou até mesmo como o início de uma nova era de conflitos estruturais.
O cenário se agravou de forma relevante após o fechamento do Estreito de Ormuz, decorrente de uma interceptação dos Estados Unidos ao Irã, o que acabou interrompendo negociações e tornando qualquer resolução mais complexa. Esse movimento eleva significativamente o risco global e muda o patamar de incerteza.
Além disso, começaram a circular rumores envolvendo possíveis ataques nucleares, o que intensificou a percepção de risco sistêmico. Em um movimento bastante simbólico, o governo da Bélgica chegou a recomendar que a população preparasse kits de emergência, evidenciando o grau de preocupação na Europa.
Petróleo reage e pressiona mercados
O impacto mais imediato desse cenário foi observado no mercado de petróleo. O Brent voltou a operar acima de 100 dólares, negociando entre 107 e 108 dólares no início da semana, após uma alta acumulada de aproximadamente 17%.
Um ponto importante é que o Irã passou a queimar suas próprias reservas para liberar tanques e manter a produção ativa. Esse tipo de decisão indica o nível de tensão do conflito, já que interromper e retomar operações energéticas pode levar anos.
Esse movimento no petróleo teve reflexos diretos sobre os mercados globais. O Ibovespa, por exemplo, sofreu uma queda expressiva de mais de 7.000 pontos ao longo da semana, configurando uma reversão relevante, próxima de 2,5%.
Super semana de juros com foco fora da política monetária
Apesar de ser uma semana carregada de decisões de política monetária, com reuniões do Copom e do Fed, o foco do mercado não está nas taxas de juros em si.
Nos Estados Unidos, Europa e Reino Unido, não há expectativa de alta de juros neste momento. O principal vetor de atenção segue sendo o desenrolar do conflito e seus impactos sobre inflação e crescimento.
Já no Brasil, o movimento chama atenção por seguir na direção oposta, com expectativa de corte de juros. Esse cenário gera desconforto, especialmente diante da pressão adicional vinda do câmbio e do petróleo.
A curva de juros doméstica reagiu, e a expectativa para a taxa Selic terminal foi ajustada para 13,5%, indicando mais uma leve alta em relação a semana passada.
Fiscal, petróleo e câmbio
No campo fiscal, surgiu a discussão sobre uma possível isenção total de PIS/Cofins sobre a gasolina. No entanto, a medida não tem implementação imediata, já que depende de aprovação do Congresso e sanção presidencial.
O anúncio trouxe ruído, principalmente por sugerir falta de planejamento em um momento em que os gastos públicos já se encontram pressionados.
Por outro lado, o aumento do petróleo traz um efeito compensatório relevante via royalties, o que tras um alívio importante para o lado fiscal, podendo ate zerar o deficit do ano.
No câmbio, o dólar encerrou próximo de R$5,00. Mesmo com a pressão recente, a leitura predominante é que, em um cenário prolongado de conflito, o Brasil tende a se beneficiar, como já ocorreu durante a guerra entre Rússia e Ucrânia, com entrada de fluxo estrangeiro.
Brasil como porto seguro
Dentro desse contexto global mais instável, o Brasil passa a ser visto como um porto seguro relativo.
O país não está diretamente exposto ao conflito atual e apresenta uma bolsa considerada barata, tanto em termos históricos quanto na comparação com outros mercados emergentes.
O fluxo estrangeiro já começa a refletir essa visão, com concentração na compra do EWZ, que representa o Brasil em dólar e é fortemente composto por blue chips.
No entanto, para que outros segmentos do mercado, como small caps, também se beneficiem, será necessário o retorno do investidor local, trazendo liquidez para além dos grandes nomes.
Cenário internacional e atividade
Nos Estados Unidos, a inflação segue projetada acima da meta de 2,5% ao longo do ano.
O provável novo presidente so FED Kevin Warsh foi sabatinado pelo Senado e trouxe um discurso mais ortodoxo e conservador, reforçando a independência da instituição em relação à Casa Branca e indicando intenção de redução do balanço. Esse posicionamento ajudou a reduzir ruídos no mercado.
A Treasury de 10 anos apresentou pouca oscilação, refletindo uma expectativa de juros e inflação estruturalmente mais elevados.
Na Europa, os dados de atividade começaram a mostrar deterioração mais clara. O PMI recuou de 52 para 48,7, entrando em território de contração. A Alemanha apresentou sinais semelhantes, evidenciando o impacto direto da proximidade com o conflito e da inflação mais alta.
Mercados globais
Após uma semana bastante negativa, as bolsas americanas conseguiram alguma recuperação na sexta-feira.
O S&P 500 encerrou praticamente estável na semana, sustentado por resultados de empresas de tecnologia, como a Intel. Ainda assim, o movimento não foi suficiente para compensar totalmente o aumento de aversão a risco.
O MSCI World apresentou queda de aproximadamente 0,83% na semana, apesar de seguir positivo no ano.
O índice global de renda fixa teve queda de 0,54% na semana, mantendo desempenho positivo no mês e praticamente neutro no acumulado do ano.
No Brasil, o movimento foi mais negativo. As ações recuaram cerca de 2,8%, enquanto os índices de renda fixa, tanto prefixados quanto atrelados à inflação, também registraram quedas.
Conclusão
O cenário atual reforça a transição de um ambiente de incerteza pontual para um contexto mais estrutural de risco geopolítico.
Os impactos já são visíveis em commodities, inflação e fluxo de capitais, e tendem a continuar moldando os mercados nas próximas semanas.
O Brasil aparece como um dos possíveis beneficiários relativos, mas ainda depende da participação do investidor local para uma dinâmica mais ampla de valorização.
Cautela é o nome do jogo.