UPDATES SEMANAIS DE MERCADO
Menu Principal
Explore as nossas análises semanais do mercado. Clique nos botões abaixo para navegar rapidamente para o conteúdo desejado.
2026
Fevereiro
UPDATE SEMANAL DE MERCADO 13/04/2026
RAYA Advisory by Francisca Brasileiro
Loading...
Update de Mercado - semana de 7 a 11 de abril de 2026
Consolidação do cenário geopolítico, inflação, política monetária e comportamento dos ativos
A semana foi dominada, mais uma vez, pela geopolítica. O conflito no Oriente Médio, com epicentro no Estreito de Ormuz, continuou sendo o principal vetor de preço para petróleo, inflação, juros e ativos de risco ao redor do mundo. O que se viu ao longo dos últimos dias foi um mercado oscilando entre momentos de alívio, quando aumentaram as expectativas de que poderia haver algum acordo de paz e a reabertura do Estreito, e novas ondas de cautela, à medida que o noticiário deixava claro que os termos de qualquer acordo continuavam frágeis, contraditórios e sujeitos a reviravoltas.
Ao longo da semana, o mercado foi gradualmente entendendo que o prêmio geopolítico do petróleo não iria embora tão cedo. Mesmo quando a commodity recuava, a leitura predominante era a de que o conflito havia entrado em uma fase de negociação tensa, e não de normalização. Isso é importante porque muda o perfil do choque: deixa de ser um susto pontual e passa a ser um risco persistente para energia, logística e inflação. No fim de semana, a frustração das negociações em Islamabad e a decisão dos Estados Unidos de iniciar o bloqueio aos portos iranianos elevaram novamente o grau de tensão. Na abertura da nova semana, o petróleo voltou a disparar, com o Brent acima de US$ 100, reforçando a percepção de que o mercado segue operando sob um novo patamar de risco.
Do ponto de vista macro global, a semana também foi relevante porque começaram a aparecer, com mais clareza, os efeitos do choque de energia sobre os índices de inflação. Nos Estados Unidos, o CPI de março subiu 0,9% no mês, levando a taxa anual para 3,3%. O número veio em linha com o esperado, mas o ponto central foi a composição: a gasolina teve papel importante, confirmando que a alta do petróleo já começou a contaminar a inflação ao consumidor. O núcleo ficou um pouco mais comportado, mas isso não foi suficiente para devolver conforto ao Federal Reserve. Na prática, o dado reforçou a leitura de juros altos por mais tempo. O processo de desinflação não desapareceu, mas ficou mais lento, mais incômodo e mais vulnerável a novos choques de oferta.
Na Europa e na Ásia, os dados também foram acompanhados com atenção, mas o eixo dominante continuou sendo o impacto indireto do petróleo sobre atividade e preços. A China trouxe números de inflação ainda moderados, mas o mundo segue olhando muito mais para sua capacidade de sustentar crescimento e demanda por commodities do que para uma pressão inflacionária doméstica. Ao mesmo tempo, as discussões no âmbito do FMI e do Banco Mundial ganharam peso, porque a combinação entre tensão geopolítica, energia cara e desaceleração global voltou a frequentar o radar dos investidores.
No Brasil, a semana foi marcada por uma combinação desconfortável: inflação mais alta, deterioração das expectativas e tentativa do governo de amortecer o choque de combustíveis sem deixar a conta fiscal explodir de vez, embora essa conta fique cada vez mais pressionada.
O IPCA de março subiu 0,88%, acima do esperado, com a inflação acumulada em 12 meses avançando para 4,14%. O principal destaque foi a gasolina, com alta de 4,59% no mês e contribuição de 0,23 ponto percentual para o índice. Alimentos também voltaram a pressionar com mais força. Houve alguma melhora na margem em serviços, o que é relevante para o Banco Central, mas o quadro geral foi de inflação mais pressionada e mais disseminada do que se gostaria. Em outras palavras, o dado não muda sozinho o regime monetário, mas piora bastante o conforto para seguir cortando juros em ritmo mais forte.
Isso apareceu imediatamente nas revisões de mercado. O Boletim Focus da segunda-feira já mostrou deterioração expressiva para o IPCA de 2026, que subiu de 4,36% para 4,71%, enquanto as projeções de crescimento permaneceram praticamente estáveis e o câmbio até melhorou um pouco. É um retrato interessante: o mercado passou a enxergar mais inflação sem, por enquanto, comprar um cenário de atividade mais fraca ou de desvalorização cambial adicional. Ou seja, a piora veio do choque de preços e de sua possível persistência, não de um colapso macro mais amplo. Para a Selic, a mediana continuou em 12,50% no fim de 2026, mas essa estabilidade esconde um desconforto crescente. Na prática, a curva já vinha embutindo uma percepção de espaço mais limitado para cortes, e parte relevante das casas passou a trabalhar com taxa terminal mais alta do que antes.
Ao longo da semana, a precificação do Copom oscilou bastante. Em momentos de maior alívio com a guerra, voltou a aparecer alguma aposta minoritária em corte de 0,50 ponto. Mas o dado do IPCA, somado à nova escalada no petróleo, esvaziou essa leitura. O cenário mais plausível voltou a ser o de corte de 0,25 ponto, e mesmo isso passou a ser visto com menos folga. A discussão agora deixou de ser quanto dá para cortar e voltou a ser até onde ainda faz sentido continuar cortando sem correr o risco de ter de corrigir depois. Esse é justamente o tipo de conversa que banco central não gosta de ter, porque normalmente significa que o balanço de riscos ficou mais feio do que o discurso oficial gostaria de admitir.
No front fiscal e político, o governo seguiu tentando construir amortecedores para o choque energético e para o aperto sobre famílias e empresas. O pacote incluiu subsídios e desonerações ligados a combustíveis, linhas de crédito para companhias aéreas, discussão sobre novas frentes de apoio ao diesel e ao GLP e, paralelamente, avanços no desenho de medidas para enfrentar o endividamento das famílias. Entraram nesse debate aportes ao FGI, possibilidade de liberação parcial do FGTS para pagamento de dívidas, extensão de linhas para pequenos negócios e discussões envolvendo o setor agropecuário. O problema é que, embora essas medidas ajudem a suavizar a dor no curto prazo, elas não eliminam a pressão inflacionária e ainda trazem dúvidas sobre eficácia, execução e impacto fiscal.
Em paralelo, o noticiário político doméstico continuou carregado, mas em grande medida ofuscado pelos eventos externos. O Congresso seguiu movimentado com a indicação de Jorge Messias ao STF, o veto da dosimetria, o risco de CPMI do caso Master, as discussões sobre o fim da escala 6x1 e a PEC de autonomia orçamentária do Banco Central. São temas relevantes, mas durante esta semana funcionaram mais como pano de fundo institucional do que como motor principal de preço. O investidor local estava olhando mesmo era para o petróleo, o IPCA e o fluxo.
E aqui está um dos pontos mais importantes da semana: o Brasil continuou recebendo fluxo estrangeiro. Mesmo com toda a volatilidade global, a bolsa brasileira seguiu se beneficiando de uma combinação rara e poderosa neste contexto: país produtor de commodities, relativamente distante do epicentro do conflito, com juros reais ainda elevados e um câmbio que, mesmo valorizado, continua oferecendo prêmio. Esse conjunto ajudou a sustentar a entrada de capital e deu suporte adicional aos ativos domésticos. O Ibovespa renovou sucessivos recordes ao longo da semana e encerrou acima de 197 mil pontos. No ano, a bolsa sobe 22,47% e, em 12 meses, 56,17%.
A leitura do mercado parece ter sido a seguinte: em um mundo mais incerto, o Brasil não virou porto seguro, mas passou a parecer relativamente atraente. Ainda mais quando comparado a outros emergentes com maior fragilidade externa ou a economias desenvolvidas mais diretamente expostas ao choque inflacionário global. Esse movimento também ajuda a explicar o comportamento da curva local. O trecho curto voltou a abrir após o IPCA, refletindo menor convicção em relação aos cortes da Selic, enquanto os vértices mais longos encontraram algum suporte na entrada de fluxo, no câmbio mais apreciado e na visão de que juros altos por mais tempo podem ajudar a conter parte da deterioração.
Entre as classes de ativos locais, a bolsa seguiu muito bem, com forte apoio de bancos, Petrobras em vários momentos e fluxo estrangeiro, enquanto os títulos indexados à inflação continuaram aparecendo como uma das alternativas mais interessantes para o cenário atual. Eles combinam proteção contra uma inflação ainda pressionada com taxas reais elevadas, o que ajuda a explicar por que continuam sendo preferência relevante em um ambiente em que o choque de energia ameaça contaminar preços de forma mais ampla. Os prefixados também melhoraram depois do estresse inicial da guerra, mas seguem mais dependentes de uma estabilização efetiva do petróleo e de uma ancoragem melhor das expectativas.
No exterior, os ativos americanos terminaram a semana refletindo a melhora de humor trazida pela expectativa de um acordo entre Estados Unidos e Irã. As bolsas americanas encerraram a semana em alta, acompanhando essa melhora de percepção. Tanto o MSCI World quanto o S&P 500 acumulavam ganhos próximos de 4% na semana. Na renda fixa, houve leve recuperação, mas a classe segue negativa no ano. Ainda assim, a mensagem central permanece a mesma: enquanto o petróleo continuar elevado e a geopolítica seguir interferindo diretamente na inflação, o espaço para alívio monetário nas grandes economias continuará mais estreito.
Em outras palavras: o Brasil está se favorecendo no relativo aos seus pares, por não estar no epicentro da turbulência, mas não está imune a ela.
Quadro de Indicadores - 10/04/2026

© 2026 RAYA Advisory by Francisca Brasileiro
UPDATE SEMANAL DE MERCADO 06/04/2026
RAYA Advisory by Francisca Brasileiro
Loading...
Guerra, petróleo e resiliência: o Brasil navega uma semana de extremos
A semana encerrada em 4 de abril de 2026 foi dominada, mais uma vez, pela geopolítica do Oriente Médio. O Estreito de Ormuz — aquele trecho de mar de apenas 30 km de largura pelo qual passam 20 a 25% de todo o petróleo mundial, 40% do gás liquefeito e parcela relevante dos fertilizantes globais — permaneceu no centro das atenções. Em meio a narrativas contraditórias entre Washington e Teerã, o mercado oscilou entre pânico e alívio. No fim, a semana terminou com tom mais construtivo do que o início sugeria — e o Brasil, por sua posição singular nesse tabuleiro, foi um dos poucos mercados no verde.
Contexto da Semana: O Estreito de Ormuz no centro do mundo
O Brent chegou a romper US$ 115 por barril na abertura asiática de segunda-feira, 30 de março — acumulando alta de 80% no ano e de 50% só em março. O WTI encerrou a semana anterior próximo dos US$ 99,64. O choque foi imediato: companhias aéreas registraram alta de 60% no custo de combustível de aviação, e o risco de escassez de diesel no Centro-Oeste brasileiro — justamente na janela de escoamento da safra — chegou a entrar em debate público.
Do ponto de vista diplomático, a semana foi marcada por sinais contraditórios. Trump alternando entre acenos de saída rápida — "em duas ou três semanas, por bem ou por mal" — e ameaças de ataques à infraestrutura energética iraniana, inclusive à capacidade nuclear do país. Do lado iraniano, o presidente Masoud Pezeshkian sinalizou disposição de encerrar o conflito com garantias de segurança, enquanto o chanceler Abbas Araghchi reforçou que troca de mensagens não equivalia a negociação efetiva.
Na frente diplomática, a boa notícia foi o envolvimento de quatro países mediadores: Egito, Turquia, Paquistão e China. O Paquistão chegou a apresentar um plano de cinco pontos, incluindo cessar-fogo, reabertura do estreito e proteção da infraestrutura energética. Ao final da semana, alguns navios já passavam pelo Estreito de Ormuz — e o mercado leu isso como sinal de descompressão.
Na nossa visão, o alívio é bem-vindo, mas não muda o cenário de fundo: enquanto o petróleo permanecer acima de US$ 100, o impacto inflacionário global é real e significativo — estimado entre 0,8 p.p. no cenário-base e até 2 p.p. num cenário adverso prolongado.
O petróleo encerrou a semana próximo de US$ 107 o barril (Brent), recuando dos picos, mas ainda em patamar historicamente elevado. O debate central que emergiu foi o de estagflação — pressão simultânea de inflação alta e desaceleração do crescimento — que divide economistas e bancos centrais sobre o caminho correto para a política monetária.
Política Monetária: "Higher for longer" revisitado
Nos Estados Unidos, o payroll de março surpreendeu positivamente: a economia americana criou 178 mil vagas, muito acima da mediana de 51 mil. A taxa de desemprego caiu de 4,4% para 4,3%. O crescimento salarial ficou em 0,2% no mês e 3,5% em 12 meses, abaixo do esperado — um dado que reduziu o risco de uma leitura mais hawkish pelo Fed.
Jerome Powell manteve tom cauteloso, afirmando ser "cedo para medir o choque energético" e que a política monetária americana estava "bem posicionada". John Williams admitiu inflação mais alta no curto prazo, projetando 2,75% em 2026 antes da convergência para a meta em 2027. A mensagem consolidada do Fed foi de espera — sem pressa para subir nem para cortar.
No Brasil, o cenário é mais delicado. A Selic está em 14,75% ao ano — ainda em território fortemente contracionista — e o ciclo de cortes iniciado no começo do ano enfrenta agora um ambiente externo muito mais adverso. O Focus da semana mostrou piora nas expectativas: IPCA 2026 subiu de 4,17% para 4,31%, aproximando-se do teto da banda de 4,5%. O Santander revisou sua projeção de IPCA 2026 para 4,5% e a Selic terminal de 12% para 12,5%.
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, evitou sinalizar o resultado da próxima reunião do Copom, mas reforçou que o Brasil ainda opera em terreno contracionista há muito tempo, o que lhe dá espaço para aguardar a definição do quadro externo antes de ajustar o ritmo de cortes. Após sua fala, as apostas em manutenção da Selic — que chegaram a 30% na semana — recuaram. A curva de juros, que operou com todos os vértices acima de 14% nos dias mais tensos, aliviou parcialmente ao final da semana.
Seguimos atentos à reunião do Copom: o mercado já precifica Selic em torno de 14,25% ao final de 2026, o que implica apenas mais dois cortes de 0,25 p.p. Um ritmo bem mais conservador do que se imaginava há poucos meses.
Bolsas: Brasil brilha enquanto o mundo oscila
Em uma semana de forte volatilidade global, o Ibovespa surpreendeu com alta de 3,36%, encerrando em 187.651 pontos e acumulando 16,46% no ano. O desempenho contrasta diretamente com as bolsas americanas, que fecharam o mês de março no vermelho e ainda acumulam quedas relevantes em 2026: S&P 500 com -4,42% e MSCI World com -2,76% no ano.
O motor da resiliência brasileira é o fluxo estrangeiro. Segundo os dados da semana, entraram US$ 7 bilhões na bolsa brasileira no auge da crise geopolítica — exatamente o movimento inverso do que historicamente se observa em momentos de aversão a risco global. A explicação está na posição única do Brasil: somos exportadores de petróleo, estamos distantes do epicentro do conflito e oferecemos valuations ainda atrativos em comparação com os mercados desenvolvidos.
As bolsas americanas registraram recuperação importante ao final da semana, com o Dow subindo 2,49%, o S&P avançando 2,91% e o Nasdaq ganhando 3,83% em um único pregão — um dos melhores dias de março. Ainda assim, tanto Dow quanto Nasdaq já tinham entrado em território de correção (queda superior a 10% dos picos), e o S&P estava próximo desse limiar.
Na China, os PMIs vieram em território expansionista: o PMI industrial oficial subiu de 49,0 para 50,4 em março, superando a expectativa. Na Europa, o PMI industrial da Zona do Euro ficou em 51,6, acima do esperado. Esses dados ajudaram a sustentar a tese de que o choque geopolítico ainda não contaminou de forma severa a atividade global.
Câmbio: real resiliente, dólar oscilante
O dólar encerrou a semana em R$ 5,1545, com queda de 1,89% — acumulando desvalorização de 5,87% no ano e de 9,54% nos últimos 12 meses. O real segue como uma das moedas de melhor desempenho global em 2026, beneficiado pelo fluxo estrangeiro robusto e pela condição de exportador de commodities energéticas.
No cenário global, o DXY — índice que mede o dólar contra uma cesta de moedas — permaneceu acima de 100 durante boa parte da semana, reflexo da busca por segurança em ativos americanos. O euro oscilou próximo de US$ 1,15, a libra recuou para a faixa de US$ 1,32 e o iene chegou a tocar 160 por dólar, com especulações sobre intervenção cambial japonesa. Ao final da semana, com a descompressão parcial no petróleo, o DXY recuou e fechou próximo de 100 — sinal de que a busca por liquidez em dólar reduziu de intensidade.
Renda Fixa: inflação na frente, pré-fixados seguros
Na renda fixa brasileira, a semana foi positiva. Os títulos indexados à inflação (IMA-B) avançaram 1,05% na semana, reforçando sua posição de destaque com alta de 3,26% no ano. Os pré-fixados (IRF-M) subiram 0,95% na semana, acumulando 2,53% no ano. Ambos seguem superando a Selic/CDI em 2026.
Nossa visão segue a mesma: em um cenário de inflação pressionada por choque externo e juros precisando se manter restritivos por mais tempo, os títulos indexados à inflação oferecem proteção mais consistente do que os pré-fixados. Seguimos preferindo o IPCA+ neste momento.
Vale mencionar que os multimercados voltaram ao terreno negativo no ano em março, após um início promissor. A parcela de crédito também sofreu com a abertura de juros durante o mês. Esses dados ainda serão atualizados nas próximas semanas.
Indicadores de Mercado — 04 de abril de 2026

Conclusão
A semana deixou uma mensagem clara: o ambiente global voltou a ser dominado pela geopolítica, mas os mercados demonstraram que sabem diferenciar quem está no epicentro do problema e quem se beneficia pela margem. O Brasil ficou no segundo grupo.
O risco central continua sendo a trajetória do petróleo. Se o conflito no Oriente Médio perdurar e o Brent permanecer acima de US$ 100, a pressão inflacionária global será inevitável e relevante — impactando diretamente a política monetária no Brasil e no mundo. O cenário de estagflação, embora não seja o mais provável neste momento, voltou a entrar no radar dos investidores.
Para o investidor brasileiro, o quadro exige atenção redobrada: a bolsa e o câmbio se comportaram bem, mas os fundamentos que sustentam esse desempenho — fluxo estrangeiro e exportação de commodities — são sensíveis às próximas notícias do conflito. A renda fixa indexada à inflação segue como nossa posição preferencial neste ambiente.
Na nossa visão, a palavra de ordem continua sendo disciplina: aproveitar as oportunidades que esse cenário gera, sem abrir mão da diversificação e do controle de risco. Seguimos atentos.
© 2026 RAYA Advisory by Francisca Brasileiro
UPDATE SEMANAL DE MERCADO 30/03/2026
RAYA Advisory by Francisca Brasileiro
Loading...
Guerra, choque de oferta e o pano de fundo global
Começamos mais uma semana em que o mercado segue dominado pelo mesmo tema central: a guerra no Oriente Médio. Completado um mês da invasão, o cenário-base continua sendo de conflito mais prolongado. Em situações como essa, o mercado tenta transformar incerteza em probabilidade, e uma das estatísticas que mais chama atenção é que guerras que ultrapassam um mês de duração, em sua ampla maioria, tendem a se estender por mais de um ano. Esse continua sendo, portanto, o pano de fundo mais relevante para os ativos globais.
O ponto central: não é só petróleo, é choque de oferta
O mercado frequentemente resume esse quadro ao preço do petróleo, mas o problema é mais amplo. O que está em jogo é um choque de oferta clássico, com impacto sobre diversos insumos essenciais da cadeia produtiva global. Energia é apenas uma parte da equação. Há também efeitos sobre gás, componentes médicos, metais e fertilizantes, em um contexto em que parte da infraestrutura foi destruída e a recomposição da oferta pode levar mais de um ano. No caso dos fertilizantes, mais de 40% do comércio passa pela região afetada, o que adiciona um componente inflacionário importante, ainda que o Brasil seja menos sensível a alguns tipos específicos.
Brasil: corte de juros em hora delicada
É nesse contexto que o Brasil iniciou o corte do atual ciclo da Selic, levando a taxa de 15,00% para 14,75%. O movimento ocorre justamente quando o restante do mundo, em linhas gerais, segue sinalizando manutenção ou até risco de altas adicionais. Isso torna o timing brasileiro particularmente sensível. O debate não é apenas sobre o tamanho do corte, mas sobre a assimetria do risco: se o Banco Central cortar cedo demais em um ambiente de choque de oferta, pode acabar tendo que reverter o movimento à frente, e em patamar ainda mais elevado.
Petróleo, inflação e câmbio: a conta ainda não fechou
O petróleo é o termômetro mais visível dessa história. Depois de fechar a semana em torno de US$ 108, abriu esta segunda-feira perto de US$ 112. O que antes parecia nível de estresse extremo começa a ser tratado como novo normal, e isso muda a conta inflacionária de forma relevante. Pelas estimativas mencionadas no vídeo, um repasse parcial desse movimento poderia adicionar algo como 1,5 ponto percentual à inflação, muito acima do que ainda está embutido nas projeções mais benignas.
Bolsas: Brasil descola, exterior piora
Na renda variável, o contraste foi evidente. O Ibovespa subiu 3% na semana, descolando do cenário internacional. A leitura predominante foi a de que o Banco Central brasileiro, apesar do início do ciclo de corte, manteve um tom de processo gradual e cauteloso, o suficiente para sustentar o apetite local por risco. Em um ambiente em que o mercado enxerga algum espaço para o Brasil operar com dinâmica própria, isso foi suficiente para manter a bolsa doméstica resiliente.
Crédito e renda fixa local: mais prudência, menos euforia
No Brasil, além do risco para bolsa, o crédito segue exigindo atenção. Em cenário de estagflação, as empresas tendem a ser pressionadas simultaneamente por custo financeiro elevado, atividade mais fraca e inflação persistente. Essa combinação costuma sufocar margens e piorar a percepção de risco, o que reforça a necessidade de seletividade.
Conclusão
O Brasil continua apresentando uma bolsa relativamente resiliente, e isso não deve ser ignorado. Mas o pano de fundo global segue muito adverso. Guerra prolongada, risco de fechamento de rotas críticas de comércio, petróleo em novo patamar, choque de oferta e inflação pressionada formam uma combinação que pede prudência. Em nossa visão, esse ainda não é um ambiente para relaxar no risco de crédito nem para alongar demais em pré-fixados apostando em um ciclo linear de queda de juros.
UPDATE SEMANAL DE MERCADO 23/03/2026
RAYA Advisory by Francisca Brasileiro
Loading...
Geopolítica: o conflito mudou de natureza
Mais uma semana marcada pelos conflitos entre Estados Unidos, Irã e Israel, e fica até difícil falar de qualquer outra coisa. Tivemos reunião dos principais bancos centrais, dados relevantes e uma série de eventos importantes, mas tudo acabou ficando em segundo plano. No fim do dia, o que realmente moveu os mercados foi a guerra, e principalmente a percepção de como ela começa a afetar a economia real.
A dinâmica do conflito também mudou nos últimos dias. Começaram a surgir sinais de uma tentativa de evitar uma escalada direta sobre infraestrutura de energia, com uma redução nos ataques a centrais energéticas, o que não é trivial, já que o mercado passou a temer uma verdadeira “guerra de energia”. Ao mesmo tempo, essa tentativa de contenção veio acompanhada de movimentos que elevam o risco, como o ataque a uma base militar ligada ao Reino Unido e aos Estados Unidos, a uma distância de aproximadamente 4.000 km, o que evidencia a capacidade de alcance e mantém a possibilidade de ampliação geográfica do conflito no radar.
Petróleo: o impacto já está contratado
Nesse contexto, o petróleo continua sendo a variável central. O Brent chegou a bater $117 na quinta-feira e depois recuou, encerrando a semana mais próximo de $107. Mais importante do que o nível é o sinal que esse movimento traz. O mercado parece ter internalizado que petróleo mais alto significa inflação mais alta, com impacto direto em toda a cadeia produtiva, passando por transporte, logística e custo de bens e serviços.
Bancos Centrais: o mundo parou — e endureceu o discurso
Do ponto de vista de política monetária, a semana também trouxe mudanças importantes. Tivemos reuniões dos quatro principais bancos centrais — Fed, Banco Central Europeu, Banco da Inglaterra e Banco do Japão — e, de forma geral, a mensagem foi de manutenção de juros, com um tom mais cauteloso.
Brasil: início de corte em um cenário mais complexo
No Brasil, o cenário se torna mais delicado. O Banco Central iniciou o ciclo de cortes com uma redução de 0,25%, movimento que já estava, em grande parte, precificado. No entanto, o contexto global mudou rapidamente, e a alteração na comunicação ao longo do processo trouxe alguma incerteza adicional.
Mercados: desempenho misto e aumento de aversão a risco
Na renda variável, o comportamento foi mais misto. O Ibovespa apresentou queda no mês, mas ainda acumula uma alta relevante no ano, próxima de 10%, mantendo-se como um dos destaques globais.
Conclusão: cautela é o nome do jogo
Em síntese, o cenário global se tornou mais complexo e menos previsível. A combinação de petróleo mais alto, inflação pressionada e juros elevados por mais tempo cria um ambiente mais desafiador, especialmente considerando que o Brasil iniciou um ciclo de cortes nesse contexto.
UPDATE SEMANAL DE MERCADO 16/03/2026
RAYA Advisory by Francisca Brasileiro
Loading...
COPOM sob pressão
Contexto
Infelizmente, mais uma semana em que o geopolítico dominou completamente a pauta de mercado.
Excepcionalmente desta vez vamos fazer um update um pouco mais longo sobre esse tema. Não é um assunto no qual eu costumo me aprofundar muito aqui, mas ele acabou se tornando central para entender o momento atual dos mercados.
E o motivo é simples: quando energia entra em jogo — e principalmente petróleo — os impactos acabam se espalhando rapidamente por toda a economia. Juros, inflação, câmbio, comércio internacional... tudo acaba sendo afetado.
1. Guerra, Petróleo e o Estreito de Ormuz
O foco continua sendo o conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã.
No início, a expectativa era de um evento relativamente curto. O próprio presidente Trump chegou a dizer que a guerra duraria no máximo duas semanas. O mercado já trabalha com outra hipótese — hoje já se fala em algo entre quatro e seis semanas de duração, e já passamos da primeira semana.
O principal ponto de atenção continua sendo o Estreito de Ormuz.
Para quem não acompanha esse tema de perto, vale entender a dimensão do problema: cerca de 20% de todo o petróleo transportado globalmente passa por essa região, principalmente saindo do Oriente Médio em direção à Ásia.
Os principais compradores desse petróleo são China e Índia — mas existe uma diferença importante entre os dois países:
  • China: possui alternativa logística relevante. Parte do abastecimento energético chega por oleodutos terrestres vindos da Rússia, reduzindo a dependência do transporte marítimo pelo Golfo.
  • Índia: depende muito mais dessa rota. Aparece, portanto, como o país potencialmente mais impactado caso haja interrupções no fluxo pelo estreito. Inclusive já foram autorizadas compras temporárias de petróleo russo que já estavam em trânsito no mar, justamente para aliviar esse problema no curto prazo.
1.1 Minas no estreito e tensão na região
Além disso, tivemos declarações da Guarda Revolucionária iraniana de que minas teriam sido colocadas ao longo do estreito. Se isso se confirmar, a limpeza da região pode levar semanas — potencialmente meses.
Ou seja, não é apenas uma questão militar. Existe um risco logístico real para o transporte de petróleo.
Também tivemos ataques em diferentes pontos da região, incluindo o porto de Basra, no Iraque, que chegou a suspender voos após os episódios de tensão. Tudo isso aumenta a percepção de que o conflito pode durar mais tempo do que inicialmente se imaginava.
1.2 A resposta internacional
Diante desse cenário, tivemos uma reação importante da Agência Internacional de Energia: foi anunciada a maior liberação coordenada de reservas estratégicas de petróleo da história, totalizando cerca de 400 milhões de barris. Somente os Estados Unidos responderiam por aproximadamente 165 milhões de barris desse volume.
Essas medidas ajudaram a conter parte da escalada do petróleo, que chegou a recuar em alguns momentos da semana — especialmente após declarações mais otimistas de que o conflito poderia terminar rapidamente. No fechamento, contudo, o petróleo voltou a operar acima de US$ 100 por barril.
2. O Impacto sobre a Inflação
O petróleo não é apenas uma commodity relevante — ele é, essencialmente, energia. E energia afeta praticamente toda a economia.
Desde o início da guerra, o petróleo acumulou alta significativa: aproximadamente 25% desde o início do conflito e algo próximo de 40% considerando o movimento mais amplo desde o começo do ano.
Segundo estimativas discutidas com o economista Lívio Ribeiro, caso esse aumento fosse totalmente repassado aos preços domésticos, o impacto no IPCA poderia variar entre 1,5% e 3%, considerando efeitos diretos e indiretos.
Para colocar isso em perspectiva:
Um choque dessa magnitude muda completamente a discussão sobre política monetária.
3. Petrobras, Diesel e Política de Preços
Nesse contexto, a política de preços da Petrobras volta ao centro do debate.
Desde a mudança de estratégia adotada em 2023, os repasses passaram a ser feitos de forma mais gradual, justamente para reduzir volatilidade. O resultado é que hoje existe uma defasagem relevante entre os preços domésticos e o mercado internacional.
Segundo levantamento da consultoria Stonex:
Depois de 312 dias sem reajuste, a Petrobras anunciou um aumento de aproximadamente 11% no diesel.
3.1 Medidas governamentais de compensação
Ao mesmo tempo, o governo anunciou medidas para suavizar esse impacto:
  • Retirada de PIS/Cofins sobre o diesel
  • Subsídio de R$ 0,32 por litro nas refinarias
  • Criação de um imposto temporário de 12% sobre a exportação de petróleo
Essas medidas representam uma renúncia fiscal de cerca de R$ 30 bilhões, parcialmente compensada por uma arrecadação estimada de R$ 15 bilhões com o novo imposto de exportação.
4. COPOM sob Pressão
Tudo isso acontece justamente às vésperas da reunião do COPOM.
Antes da escalada geopolítica, a expectativa predominante era de corte de 0,50 p.p. na Selic. Após os eventos das últimas semanas, o mercado passou a considerar 0,25 p.p. como cenário mais provável — e agora já existe uma discussão real sobre nenhum corte nesta reunião.
Na nossa leitura, o ambiente sugere cautela. O diesel tem impacto indireto importante na inflação, porque afeta transporte, logística e boa parte da cadeia produtiva — especialmente o agronegócio. Começar um ciclo de corte de juros em meio a um potencial choque inflacionário parece, no mínimo, prematuro.
5. Cenário Político Doméstico
Como se o cenário externo já não fosse suficiente, o ambiente político doméstico segue bastante turbulento. Circulam no noticiário:
  • Possíveis desdobramentos envolvendo o Banco Master
  • Especulações sobre delação de Vorcaro
  • Disputas envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal
Além disso, o país atravessa um momento de mudanças relevantes no núcleo da política econômica: há expectativa de saída do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e da ministra do Planejamento, Simone Tebet. O Banco Central, por sua vez, opera atualmente com duas diretorias vagas.
6. Mercados
Esse conjunto de fatores levou a uma semana de maior aversão a risco.
O dólar permaneceu relativamente estável mesmo com a recuperação do DXY, reforçando um movimento típico de períodos de incerteza: o chamado flight to quality.
Conclusão
A principal mensagem da semana é relativamente simples: quando geopolítica e energia entram na equação, os fundamentos econômicos acabam ficando em segundo plano.
Neste momento, o mercado tenta entender duas questões centrais:
  1. Quanto tempo o conflito pode durar?
  1. Qual será o impacto inflacionário desse choque de energia?
Enquanto essas respostas não ficam mais claras, a tendência é que os mercados sigam operando com maior cautela.
UPDATE SEMANAL DE MERCADO 09/03/2026
RAYA Advisory by Francisca Brasileiro
Loading...
Geopolítica, Petróleo e o Dilema dos Juros
A primeira semana de março de 2026 consolidou o movimento de aversão a risco dos mercados internacionais. O acirramento do conflito entre Irã, EUA e Israel ofuscou outros dados relevantes e deu a tônica nos preços, levando os investidores a reduzirem suas exposições a risco e buscarem portos seguros com ativos de mais qualidade (chamamos esse movimento de fly to quality).
Como resultado vimos as principais bolsas globais caírem e o Ibovespa perder devolver parte dos ganhos do ano, entregando 5% de retorno negativo na semana.
O Gatilho: O Estreito de Ormuz e o Choque do Petróleo
O centro gravitacional das atenções mundiais deslocou-se para o Oriente Médio. O acirramento das tensões envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã culminou em uma série de ataques a bases militares estratégicas, mas o impacto mais profundo não se deu apenas no campo de batalha, e sim nas rotas logísticas globais.
O Estreito de Ormuz, por onde transita aproximadamente 20% de toda a produção mundial de petróleo, encontra-se em um estado de "fechamento prático". Embora o governo iraniano negue um bloqueio total, a restrição a navios de bandeira americana, israelense e de seus aliados gerou um efeito imediato: o custo do seguro marítimo atingiu níveis proibitivos, paralisando o fluxo comercial.
Como consequência, o barril de petróleo rompeu a barreira psicológica dos US$ 100, atingindo picos de US$ 118. Esta alta de cerca de 25% em um curto espaço de tempo atua como um imposto direto sobre o consumo global, pressionando as cadeias produtivas que já lutavam contra gargalos inflacionários. No Brasil, o cenário é agravado pela defasagem acumulada; estima-se que o diesel e a gasolina precisariam de reajustes entre 25% e 30% para se alinharem à paridade internacional, um movimento que o Banco Central observa com extrema cautela.
O Dilema Brasileiro: A Selic e o Espectro da Inflação
No plano doméstico, o Brasil vive um momento de encruzilhada. Após um longo período mantendo a taxa Selic em patamares historicamente elevados — com o juros mantendo-se elevado em níveis não vistos desde a primeira gestão do governo Lula em 2002 — o mercado ansiava pelo início de um ciclo consistente de cortes de juros.
Contudo, a autoridade monetária brasileira opera sob um Regime de Metas de Inflação, e a meta central de 3% ao ano parece cada vez mais distante. O Dilema de Março reside no mecanismo de transmissão da política monetária:
  • Horizonte Relevante: O Banco Central olha para um horizonte de 18 meses. Decisões tomadas hoje terão seu efeito pleno apenas no segundo semestre de 2027.
  • Inércia e Pressão de Custos: Com a alta do petróleo, a inflação de custos (alimentos, fretes e insumos) tende a se espalhar pela economia, gerando uma inércia que dificulta a convergência para a meta.
Na reunião agendada para 18 de março, o mercado estava dividido entre um corte de 0,50 p.p. e um corte mais conservador de 0,25 p.p. (ou mesmo a manutenção da taxa). A pressão inflacionária sugere que o Banco Central pode ser forçado a adotar um tom mais "hawkish" (rigoroso), sinalizando que o ciclo de queda pode ser mais curto ou mais lento do que o anteriormente precificado.
Estados Unidos e o Risco de Estagflação
A maior economia do mundo também enviou sinais contraditórios na última semana. Os dados do Payroll (folha de pagamentos não-agrícola) revelaram uma desaceleração no número de vagas: enquanto se esperava a criação de 50 mil postos, o resultado foi o fechamento de 90 mil. Teoricamente, isso sinalizaria um resfriamento econômico que permitiria ao Federal Reserve (Fed) cortar juros.
Entretanto, o paradoxo reside na inflação salarial. Mesmo com menos contratações, o crescimento real dos salários veio acima das expectativas (3,8%). Esse cenário de baixo crescimento econômico acompanhado de inflação persistente é o que chamamos tecnicamente de Estagflação.
Essa dinâmica forçou uma reprecificação das curvas de juros nos EUA. A expectativa de cortes começou a ser empurrada de março para junho, e agora para setembro, mantendo os rendimentos dos títulos do Tesouro (Treasuries) em alta e penalizando o mercado de ações, especialmente o setor de tecnologia.
A "Brasileirização" do Mundo e o Mercado de Crédito
Um conceito interessante discutido recentemente pela revista The Economist e ecoado em nossa análise é a "Brasileirização" da economia global. Este termo refere-se a um mundo onde países desenvolvidos passam a conviver com características antes restritas a mercados emergentes:
  • Níveis de endividamento público altíssimos.
  • Taxas de juros reais elevadas por períodos prolongados.
  • Inflação volátil e persistente.
Este novo "normal" global está cobrando seu preço no Mercado de Crédito. Recentemente, observamos gestoras gigantes como BlackRock e Blue Owl fecharem fundos de crédito privado para resgates. Quando o mercado de crédito trava, é um sinal de alerta máximo; isso indica que a liquidez está secando e que o risco de inadimplência corporativa, sob juros altos, está sendo reavaliado.
No Brasil, os ativos de renda fixa também sofreram. Títulos prefixados e indexados à inflação registraram perdas na marcação a mercado nesta semana, com os índices caindo entre 1,00% e 1,23%, refletindo o temor de que o CDI permaneça alto por mais tempo do que o investidor médio gostaria.
Considerações da RAYA
O Ibovespa, que havia superado os 190 mil pontos no início do ano, recuou para a casa dos 179 mil, uma realização natural diante da magnitude das incertezas geopolíticas. Contudo, é fundamental notar que, no acumulado do ano, a bolsa brasileira ainda mantém uma performance resiliente de 11%, superando índices como o S&P 500 e o MSCI Word que estão oscilando ao redor do “zero-a zero”
Temos alertado já há um tempo que o enxergamos como um movimento arriscado reduzir o juros em um cenário onde a inflação ainda está muito longe do centro da meta e sem sinais de convergência no horizonte relevante de tempo (consideramos o horizonte relevante de tempo o período de 18 meses no qual as ações das políticas monetárias tendem a fazer efeito)
Qual a recomendação para o investidor?
Na RAYA, continuamos monitorando os desdobramentos no Oriente Médio e a comunicação do Banco Central. O cenário é de cautela, mas ainda enxergamos que o fluxo de recursos estrangeiros deve priorizar o Brasil em relação a outras dívidas, ainda que em um primeiro momento a fuga de mercados emergentes fale mais alto.
UPDATE SEMANAL DE MERCADO 02/03/2026
RAYA Advisory by Francisca Brasileiro
Loading...
A última semana foi marcada por fortes emoções e eventos bastante extremos. Ainda no dia 20/2, novos desdobramentos na guerra comercial global ("Trade War") surgiram com a suprema corte americana declarando inconstitucional o regime tarifário imposto por Trump ao resto do mundo. O que começou com incertezas sobre política comercial nos Estados Unidos evoluiu para um ambiente de maior aversão a risco, encerrando com um choque geopolítico relevante envolvendo EUA e Irã, com impacto direto sobre o petróleo e as expectativas de inflação global.
No Brasil, o principal destaque foi a surpresa inflacionária vinda do IPCA-15, que reprecificou de forma relevante a trajetória de juros.
Cenário Global: de tarifas a conflito geopolítico
A semana começou com o mercado reagindo às incertezas em torno da política comercial americana. A decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos de barrar temporariamente a implementação de tarifas mais agressivas trouxe ruído adicional ao ambiente. Ainda que para a maior parte dos países essa notícia seja positiva, coloca em choque acordos comerciais que já estavam em negociação, como era o caso da Europa.
Logo após o anúncio da suprema corte, o presidente Donald Trump anunciou uma elevação das tarifas básicas (impostas a todos os países como mínimo) de 10% para 15%, usando o subterfúgio da seção 122 do "trade act" de 1974 (lei sobre acordos comerciais).
Porém, para usar esse instrumento jurídico, é preciso ainda uma rodada de aprovações e nada nessa lei é simples, portanto, não sabemos ao certo se de fato essas novas tarifas entrarão em vigor e quando.
Na prática, o mercado passou a interpretar o movimento como um recuo tático, com a tarifa efetiva mantida em 10%, reduzindo parcialmente o risco de um choque inflacionário imediato. Países que foram mais impactados pelas tarifas iniciais, incluindo o Brasil, figuram entre os potenciais beneficiários dessa reorganização de fluxos comerciais, ao lado da China que é o maior rival de Trump na guerra comercial.
Estados Unidos: inflação resiliente e juros mais altos por mais tempo
Os dados de inflação reforçaram o cenário de maior cautela por parte do Federal Reserve.
PCE (núcleo) — principal métrica acompanhada pelo Fed para medir inflação ao consumidor — veio em:
• +0,42% m/m (vs. ~0,30% esperado)
• +3,1% a/a (vs. ~3,0% esperado)
PPI — que mede os preços no atacado — surpreendeu:
• +0,5% m/m (vs. 0,3% esperado)
• +2,9% a/a (vs. 1,6% esperado)
A combinação desses dados afastou ainda mais a possibilidade de cortes nas taxas de juros americanas no 1º semestre de 2026, e reforçou o discurso de "higher for longer" — ou seja, juros mais altos que a média histórica, por um período mais longo do que o previsto. Discurso esse amplificado por membros do Fed, como Susan Collins, que destacou a necessidade de "maior confiança na desinflação" para mover os juros.
Nos mercados:
• Treasury 10 anos: 3,96% (flight to quality no fim da semana pós guerra com o Irã)
• DXY: 97,6 (-0,18% na semana)
Bolsas americanas corrigiram:
• S&P 500: -1,41% na semana
• Nasdaq: -0,92% no último pregão
Tecnologia e IA: resultado de Nvidia e ajuste de expectativas
O resultado da NVIDIA, apesar de vir com números muito robustos de lucro — inclusive acima do esperado —, reacendeu os temores sobre as ações de IA. O fato é que os investimentos na nova era da computação são tão altos que será preciso continuar gerando esse nível de resultado por um longo período para justificar o atual preço das ações e todo o investimento feito nessas empresas.
Esse resultado foi reforçado por um relatório do J.P. Morgan, que estima que serão precisos US$680 bilhões para gerar um Capex de 10% ao ano. Um desafio não impossível, mas bastante incerto.
A reação foi clara:
• Ação NVDA: -7% desde o anúncio (até a última 6ª feira)
O movimento reforça uma dinâmica importante: o mercado já precificava um cenário muito otimista para IA, e qualquer resultado "apenas bom" gera realização.
Geopolítica: escalada no Oriente Médio e choque no petróleo
O principal evento da semana foi a escalada do conflito entre EUA, Israel e Irã.
O principal desdobramento em termos de mercado foi a interrupção de tráfego marinho no Estreito de Ormuz, que liga o Golfo Pérsico ao Mar da Arábia — uma das principais rotas comerciais globais. Segundo o professor Robson Gonçalves, economista da FGV, por esse estreito — controlado pelo Irã — passa cerca de 20% de todo o fluxo de petróleo no mundo.
O petróleo reagiu imediatamente:
• Brent: subiu mais de 12%, atingindo níveis próximos de US$ 81/barril
• Cenários mais extremos projetam US$ 100/barril caso o estreito permaneça fechado por período mais longo
• Atualizações da noite do dia 02/03 indicam que o Irã fechou o estreito e ameaça queimar navios
Esse movimento adiciona um novo vetor inflacionário global — justamente no momento em que a inflação já se mostra mais persistente.
Brasil: inflação surpreende e juros são reprecificados
O grande destaque doméstico foi o IPCA-15 de fevereiro:
• +0,84% m/m (vs. 0,69% esperado)
• 4,10% a/a (acima do consenso que projetava abaixo de 4%)
A surpresa inflacionária teve efeito imediato:
• redução das apostas de corte mais otimistas — de 0,75pp já em março
• questionamento até mesmo do corte de 0,50pp no curto prazo
• revisão da Selic terminal para cerca de 12,25% em dezembro
Vale mencionar que temos alertado aqui que nosso economista acredita em uma inflação bem mais resiliente do que o mercado, e que na nossa visão a inflação não converge para o centro da meta de 3% ao ano com os cortes na Selic.
Movimentos na curva de juros:
• Jan/27: 13,28% (↑)
• Jan/29: 12,64% (↑)
• Jan/33: 13,26% (↑)
Mercados locais: fluxo forte, mas com realização
Apesar do cenário mais desafiador no fim da semana, o Brasil segue como destaque no ano.
Ibovespa:
• chegou a ultrapassar os 192 mil pontos (máxima histórica intradiária)
• Fechamento: 188.786 pontos (-0,96% na semana)
• Acumulado: +4,04% no mês | +17,17% no ano
Renda fixa:
Na renda fixa, essa foi a vez dos títulos indexados à inflação (Tesouro Inflação — medidos pelo IMA-B) se beneficiarem desse cenário, subindo quase 1% na última semana de fevereiro. Os títulos pré-fixados fecharam no positivo, mesmo com a abertura da curva de juros, e seguem como destaque no ano — ambos superam a Selic/CDI.
• IMA-B: +0,96% na semana | +2,81% no ano
• IRF-M: +0,26% na semana | +2,97% no ano
• Selic CDI: +0,29% na semana | +2,20% no ano
Câmbio:
• Dólar: R$ 5,1366 | -1,34% na semana | -6,20% no ano
O real segue como uma das moedas com melhor desempenho global em 2026, sustentado por fluxo estrangeiro.
UPDATE SEMANAL DE MERCADO 23/02/2026
RAYA Advisory by Francisca Brasileiro
Loading...
Semana com poucos dados novos, mas com mudanças relevantes na margem que ajudam a refinar a leitura de cenário. O pano de fundo segue o mesmo: rotação global de capital, Brasil beneficiado por fluxo e um ambiente internacional ainda desafiador.
Brasil: atividade, juros e continuidade do fluxo
O principal dado da semana foi o IBC-Br, que confirmou a desaceleração da economia brasileira. O índice veio em -0,18%, acima da expectativa de -0,40%, indicando que a desaceleração está acontecendo, mas em ritmo mais lento do que o necessário.
Esse ponto é central. O Brasil ainda convive com uma combinação desconfortável de inflação acima da meta e juros elevados. A desaceleração da atividade é justamente o mecanismo esperado para abrir espaço para cortes mais consistentes da Selic.
A expectativa segue sendo de início do ciclo de cortes em março, com redução de 0,50 ponto percentual, levando a taxa de 15% para 14,5%. Para o final de 2026, o mercado projeta algo entre 12,5% e 12%, ainda um patamar elevado em termos globais.
Por outro lado, o fluxo estrangeiro continua sendo o grande vetor do mercado local. O Ibovespa já superou os 190 mil pontos, acumula alta próxima de 5% no mês e cerca de 18% no ano, chegando a quase 50% em 12 meses.
Mesmo com fragilidades estruturais relevantes — especialmente fiscais — o movimento de reprecificação parece ter fôlego. Em ciclos anteriores, após longos períodos de desconto, o mercado brasileiro tende a sustentar movimentos positivos por mais tempo, especialmente quando combinado com início de queda de juros.
Estados Unidos: dados fortes e adiamento dos cortes
Nos Estados Unidos, a ata do Federal Reserve reforçou uma postura de cautela. A inflação segue acima da meta e os dados de emprego continuam resilientes.
Esse conjunto reduz significativamente a probabilidade de cortes já em março. A expectativa dominante migrou para junho, reforçando novamente a narrativa de higher for longer.
Esse movimento tem implicações importantes. O diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos tende a permanecer elevado por mais tempo, o que, por um lado, limita parte do fluxo para emergentes, mas, por outro, não tem sido suficiente para interromper o movimento de rotação global.
Europa: incerteza política e impacto no câmbio
Na Europa, um novo fator entrou no radar: a possível saída de Christine Lagarde da presidência do Banco Central Europeu antes do fim de seu mandato trouxe volatilidade na bolsa europeia e no DXY (dólar index que mede o valor do dolar versus uma cesta de Moedas globais)
A gestão de Lagarde vinha sendo bem avaliada, especialmente pela condução do ciclo de juros e pela comunicação clara. A possibilidade de mudança gera incerteza adicional e já teve reflexos no câmbio.
O dólar, medido pelo DXY, segue relativamente estável, com leve valorização recente, refletindo esse ambiente de maior incerteza global.
Apesar do ruido, a bolsa Europeia performou bem e segue superando a americano no ano.
Tecnologia e inteligência artificial
No campo de tecnologia, segue o tema estrutural mais relevante do ciclo atual. A Nvidia anunciou um investimento de aproximadamente 30 bilhões de dólares na OpenAI, reforçando a magnitude da corrida por infraestrutura de inteligência artificial.
O movimento evidencia que a disputa por capacidade computacional e dados continua acelerando, com impactos relevantes sobre capex, margens e dinâmica competitiva das grandes empresas globais.
Conclusão
O cenário permanece consistente com as últimas semanas, mas com ajustes importantes na margem.
No Brasil, a atividade desacelera, mas ainda não o suficiente para garantir um ciclo de cortes mais agressivo. Ainda assim, o fluxo estrangeiro segue forte e sustentando o desempenho da bolsa.
No exterior, a postergação dos cortes de juros nos Estados Unidos reforça um ambiente de juros elevados por mais tempo, enquanto novas incertezas surgem na Europa.
Seguimos, portanto, em um cenário de rotação global de capital, com o Brasil bem posicionado no curto prazo, mas ainda dependente de avanços estruturais para sustentar esse movimento no longo prazo.
Disciplina de portfólio e diversificação seguem sendo fundamentais.
UPDATE SEMANAL DE MERCADO 18/02/2026
RAYA Advisory by Francisca Brasileiro
Semana encurtada por feriados globais e carnaval no Brasil, mas com movimentos relevantes por trás do aparente silêncio. Estados Unidos fechados na segunda-feira pelo Presidents’ Day, China parada pelo Ano Novo Lunar e Brasil praticamente inativo até esta quarta-feira. Ainda assim, os desdobramentos da semana anterior continuam ditando o tom dos mercados.
O mercado brasileiro segue como um dos principais destaques globais neste início de ano. O Ibovespa saiu de aproximadamente 182.500 pontos e encerrou a última sexta-feira em torno de 186.400 pontos, tendo atingido intradiariamente a marca histórica de 190 mil pontos.
O movimento é impulsionado principalmente pelo fluxo estrangeiro dentro do fenômeno conhecido como big rotation. Somente em fevereiro já ingressaram cerca de 30 bilhões de dólares na bolsa brasileira, volume superior ao total observado em todo o ano de 2025.
Brasil: desaceleração da atividade, juros e renda fixa
Os dados recentes de atividade econômica mostram sinais de desaceleração, especialmente em varejo e comércio. Esse enfraquecimento aumenta a probabilidade de início do ciclo de cortes da Selic já a partir de março.
Entre 9 e 13 de fevereiro, o IMA-B registrou alta próxima de 0,50%. Os prefixados já acumulam desempenho superior a 2% no ano. O IHFA sobe cerca de 3% em 2026, indicando melhora relevante do ambiente para estratégias multimercado.
No crédito, o IDA-DI segue positivo em aproximadamente 1,8% no ano. Ainda assim, há pontos de atenção envolvendo reestruturações corporativas e liquidação de bancos médios. O FGC já desembolsou entre 40 e 60 bilhões de reais de um caixa estimado em cerca de 120 bilhões.
Estados Unidos: emprego forte e juros higher for longer
O payroll mostrou abertura de 130 mil vagas, abaixo da expectativa de 170 mil, mas ainda consistente com economia resiliente. A inflação caminha para algo próximo de 2,5% ao ano, ainda distante da meta de 2%.
Com isso, diminuiu a probabilidade de cortes imediatos de juros. A narrativa de higher for longer volta ao centro do debate.
Europa
A Europa apresentou desempenho mais estável, beneficiada por menor tensão geopolítica e bons resultados corporativos.
Conclusão
O tema central é a rotação global de capital. O Brasil se beneficia do fluxo estrangeiro e de múltiplos descontados, mas o cenário ainda exige cautela. Disciplina de portfólio e diversificação seguem fundamentais.
UPDATE SEMANAL DE MERCADO 09/02/2026
RAYA Advisory by Francisca Brasileiro
Semana com muitos eventos importante, mas nada muito diferente do já esperado pelo mercado, trouxe um pouco de calmaria para a 1a semana de fevereiro.
O mercado brasileiro de renda variável segue como um dos grandes destaques globais neste início de ano. O Ibovespa avançou 0,82% na semana, encerrando próximo dos 183 mil pontos e acumulando alta de 13,54% no mês. O movimento é fortemente impulsionado pelo fluxo estrangeiro dentro do que o mercado tem chamado de big rotation.
Esse fenômeno reflete uma realocação global de capital. Investidores reduzem exposição a empresas americanas de tecnologia, negociadas a múltiplos elevados, e buscam mercados mais baratos e setores tradicionais. O Brasil, com valuations comprimidos e empresas mais ligadas à economia real, tem sido um dos principais beneficiários desse fluxo.
Brasil: COPOM, inflação e curva de juros
A ata do COPOM reforçou a expectativa de corte de 0,50 ponto percentual na SELIC na reunião de março, levando a taxa de 15% para 14,5%, assumindo ausência de choques externos relevantes.
Apesar disso, os próprios modelos indicam que a meta de inflação de 3% não será atingida no horizonte relevante de 18 meses. Ainda assim, houve leitura positiva do mercado quanto à credibilidade do Banco Central, especialmente pela sinalização de ancoragem das expectativas de longo prazo.
Por outro lado, a indicação de Guilherme Mello, economista de carreira acadêmica e no estado (em outras palavras, não vem de mercado) e com perfil considerado mais tolerante com inflação, provocou abertura da curva de juros ao longo da semana. O movimento impactou negativamente os títulos indexados à inflação, com o IMA-B (índice dos títulos do tesouro indexados a inflação) registrando queda de 0,30%. Já os pré-fixados ficaram no zero-a-zero e ainda sobrem 2% no ano de 2026
Ou seja, convivemos está semana com duas forças simultâneas: expectativa de corte de juros no curto prazo e maior prêmio de risco na parte longa da curva.
Estados Unidos: juros, política e tecnologia sob pressão
Nos Estados Unidos, o mercado mantém a expectativa de início de cortes de juros a partir de março. A possível indicação de Kevin Warsh para a presidência do FED (Banco Central Americano) foi melhor assimilada pelo mercado, reduzindo parte das incertezas recentes.
No campo político, medidas recentes do ex-presidente Trump e a proximidade das eleições legislativas adicionam ruído, mas sem impacto estrutural imediato sobre os mercados.
A bolsa americana apresentou desempenho mais fraco. O S&P 500 caiu -0,49% na semana, enquanto o MSCI World recuou apenas -0,15%, evidenciando que o movimento não é global, mas concentrado principalmente nas big techs americanas.
Empresas como Alphabet, Amazon e AMD divulgaram resultados abaixo do esperado. A Amazon, por exemplo, registrou queda superior a 8% após o balanço. O pano de fundo é relevante: a nova corrida por inteligência artificial exige volumes crescentes de investimento, tornando essas empresas menos eficientes do ponto de vista de geração de caixa no curto prazo e pressionando múltiplos que já estavam elevados.
Essa combinação tem incentivado a migração de capital para setores mais tradicionais e mercados com valuations mais atrativos, reforçando a big rotation.
Europa e Inglaterra
Na Europa, tanto o Banco Central Europeu quanto o Bank of England mantiveram suas taxas de juros inalteradas. No Reino Unido, a inflação segue ao redor de 3,5%, ainda acima da meta, o que limita espaço para flexibilização monetária mais agressiva, enquanto o BCE (Banco Central Europeu) tem sido bem assertivo em manter a inflação na meta e só deve mexer no juros caso mude algo nos EUA.
Conclusão
O cenário atual é marcado por uma realocação global de capital. A redução de exposição a tecnologia americana e a busca por mercados mais descontados explicam parte relevante da valorização do Brasil neste início de ano.
No entanto, o ambiente doméstico ainda exige cautela. A inflação segue acima da meta, a curva longa reflete prêmio de risco adicional e a dinâmica fiscal permanece no radar. Ainda que a Selic comece a cair em março, é cedo para baixar a guarda na nossa visão!
Estamos em um momento interessante: cortes de juros no horizonte, fluxo estrangeiro positivo e múltiplos atrativos. Mas, como sempre, disciplina de portfólio e diversificação continuam sendo fundamentais.
UPDATE SEMANAL DE MERCADO 02/02/2026
RAYA Advisory by Francisca Brasileiro
Janeiro fecha forte e mercado começa 2026 com mudança de tom
Janeiro de 2026 terminou com um daqueles movimentos que mudam o humor do mercado, ainda que a desconfiança com o otimismo permaneça por aqui, é inegável que os resultados tem sido convincentes e o mercado começa a projetar melhorar em todas as direções.
Em relação a última semana do mês, parece que o ano começou a tomar tração e pela primeira vez em um bom tempo, os dados falaram mais alto do que o barulho geopolítico.
O grande destaque da semana (e do mês) foi a reunião do Copom. O comunicado foi claro: os cortes da taxa Selic devem começar já na próxima reunião, em março, e de forma serena. Traduzindo: o Comitê de Política Monetária (COPOM) entende que já chegou a hora de ajustar o nível dos juros, e deixou isso de forma explicita em seu comunicado:
"Em ambiente de inflação menor e transmissão da política monetária mais evidentes, a estratégia envolve calibração do nível de juros. O Comitê antevê, em se confirmando o cenário esperado, iniciar a flexibilização da política monetária em sua próxima reunião"
Selic: fim da taxa nas máximas
Inicialmente, o mercado leu o comunicado como um possível corte de 0,25 p.p. uma vez que o comunicado indica que velocidade e magnitude dos cortes do ciclo previsto para se iniciar em março, devem ser "serenos":
Mas essa leitura durou pouco. As curvas rapidamente se ajustaram e hoje já existe cerca de 50% de probabilidade de um corte de 0,50 p.p., o que tiraria a Selic da máxima de 15% ao ano.
O cenário mais provável está entre 14,75% e 14,5%, com uma minoria apostando em algo mais agressivo. Mais importante do que o tamanho do corte é o sinal claro de mudança de ciclo.
Dólar em queda: o aliado silencioso
O dólar começou o ano caindo mais de 5% e fechou janeiro em R$ 5,19. Um câmbio mais fraco reduz a pressão inflacionária vinda de fora, melhora expectativas e abre espaço para cortes de juros mais consistentes.
Renda fixa responde
Com a queda das expectativas de juros, os títulos pré-fixados e indexados à inflação tiveram uma semana excelente, com ganhos próximos de 1% em apenas cinco dias. Os pré-fixados fecharam o 1o mês do ano com 1,96% de alta, bem acima da taxa Selic. Já os títulos indexados a inflação (IMA-B ou tesouro inflação) recuperaram um início de ano ruim, e fecharam pouca coisa abaixo do CDI/Selic.
Bolsa brasileira e capital estrangeiro
Apesar da perspectiva de queda de juros, o investidor estrangeiro continuou muito presente. A bolsa brasileira fechou janeiro com alta de 12,6%, mesmo após pequeno ajuste nos últimos dias do mês. Refletindo a piora nas bolsas globais, que detalharemos a seguir, o investidor aproveitou a fase para uma realização de lucros.
Não acreditamos que a tendencia de alta deve ser revertida rapidamente a menos que haja uma mudança maior no cenário externo. Vale sempre lembrar que cerca de 60% do capital investido na bolsa brasileira é estrangeiro.
Cenário internacional
O Fed manteve os juros entre 3,5% e 3,75%, com discurso neutro que não deram muito o tom de quando o ciclo de corte de juros será retomado na terra do Tio Sam.
Um dos grandes receios que trouxe bastante volatilidade para a bolsa americana foi as sondagens sobre quem seria o indicado para ocupar o cargo de próximo presidente do FED. Conhecida na 5ª feira, a indicação de Kevin Warsh como o nome escolhido foi bem recebida, reduzindo o temor de interferência política direta.
Essa notícia foi seguida pela informação de que, no apagar das luzes, o presidente Trump conseguiu um acordo com os democratas evitando um novo "Shutdown", período no qual a economia americana fica parada por não haver uma cordo sobre os gastos públicos. No ano passado o governo ficou mais de 50 dias neste estado, causando uma série de prejuízos.
Ambas as notícias juntas levaram o mercado a entender que o presidente americano tem buscado uma linha mais moderada, tendo em vista que a popularidade do mesmo vem caindo, especialmente depois dos eventos evolvendo a polícia anti-imigração ICE.
Como esse ano teremos eleições para Senada e Câmara os deputados por lá, especialistas indicam que os republicanos correm o risco de perder a maioria em ambas as casas, e o presidente estaria sendo pressionado por membros do próprio partido a adotar essa postura mais apaziguadora.
Quem reagiu bem a esse cenário foi o Ouro que após várias semanas de alto teve uma forte queda, revertendo parte dos ganhos.
Geopolítica e petróleo
As tensões com o Irã continuam elevadas, sustentando a alta do petróleo e mantendo riscos no radar global.
Big Techs e inteligência artificial
Os balanços das Big Techs mostraram resultados mistos. O ponto central é a preocupação crescente com os altíssimos investimentos exigidos pela inteligência artificial e seus impactos sobre margens futuras.
Enquanto a Meta subiu 10% logo após a divulgação dos resultados, por ter conseguido reverter os investimentos em IA em mais anúncios, Microsoft caiu os mesmos 10% pois não conseguiu monetizar como esperado os investimentos feitos em computação nas nuvens. Já a Apple melhorou seu lucro, mas mostrou uma margem mais reduzida justamente pelo aumento de custos. Já a Amazon chocou a todos com o anúncio de que pretende investir cerca de $50 bilhões na Open IA.
O mercado observa bastante cauteloso o impacto nos dados financeiros dessas companhias com a nova dinâmica de investimentos e resultados. Tudo acontece muito rápido e depois das fontes alta recentes, parte dos investidores espera que em algum momento pode haver um movimento contrário.
Os dados por hora não indicam excessos "nos múltiplos", ou seja, a bolsa americana segue relativamente cara, mas nada fora do padrão dos últimos anos!
Conclusão
Janeiro deixou claro que o ciclo mudou, mas o cenário ainda exige leitura fina. O foco agora se volta para a ata do Copom e os próximos sinais do Fed.