Desafios dos Fundos de Pensão: Geração Z Está Mais Endividada que os Millennials uma Década Atrás


Autor: Alexandre Muniz
Publicação: 01/06/2026


Um relatório global da TransUnion trouxe um dado que deveria ser lido com muito mais atenção do que recebeu. Jovens entre 22 e 24 anos, a Geração Z, têm hoje um índice dívida-renda de 16%, contra 12% dos Millennials quando estavam na mesma faixa etária, em 2013. O saldo médio de cartão de crédito cresceu 26%, ajustado pela inflação. E a renda média caiu: US$ 45.493 contra US$ 51.852 dos Millennials, também corrigido. Mais dívida, menos dinheiro, mais inadimplência. Esse é o ponto de partida de uma geração que ainda nem chegou ao meio da carreira.

No Brasil, esse cenário se sobrepõe a uma herança cultural que o dado da TransUnion não captura, mas que talvez explique mais do que qualquer variável macroeconômica.

O que os números não dizem

Crises econômicas frequentes ensinaram gerações de famílias brasileiras a usar o crédito como ferramenta de sobrevivência. Não como planejamento, não como alavancagem, mas como saída de emergência. O rotativo do cartão, o cheque especial, o empréstimo pessoal de última hora: esses instrumentos não foram apresentados como risco. Foram apresentados como solução.

E os filhos aprenderam observando.

A psicanálise descreve esse mecanismo com precisão. A transmissão geracional não acontece por palavras, acontece por modelos. A criança não ouve a narrativa financeira dos pais. Ela vê o comportamento. Aprende que dívida é normal, que o crédito resolve, que o presente sempre tem prioridade sobre o futuro. Esse aprendizado não é consciente. É estrutural. E é por isso que educação financeira isolada tem impacto tão limitado: você pode ensinar a teoria para alguém cujo psiquismo já aprendeu a prática de outro jeito.

Para a Geração Z que chega ao mercado de trabalho com salário menor, aluguel alto, inflação persistente e dívidas acumuladas desde cedo, a conta simplesmente não fecha. E quando não fecha, o horizonte temporal colapsa. O presente absorve tudo. O futuro fica abstrato, distante, incerto e perde completamente a disputa de atenção.

Pedir a esse jovem que poupe é matematicamente difícil. Pedir que pense em aposentadoria, então, é pedir que o córtex pré-frontal vença o sistema límbico enquanto o sistema límbico está em modo de sobrevivência. Não é falta de responsabilidade. É neurociência.

O desafio que os fundos de pensão ainda não enfrentaram de frente

Os fundos de pensão têm um problema que vai além da comunicação. Têm um problema de relevância.

Durante décadas, a narrativa previdenciária foi construída para um perfil de trabalhador que começava a carreira com certa estabilidade, acumulava patrimônio de forma linear e precisava apenas ser convencido a contribuir regularmente. Esse perfil ainda existe, mas está deixando de ser a regra entre os entrantes mais jovens.

A Geração Z não chega ao primeiro emprego perguntando onde investir o excedente. Ela chega com dívidas, às vezes herdadas do ambiente familiar, às vezes contraídas nos anos de formação, e com uma relação com o futuro financeiro que é, antes de tudo, emocional. Falar de benefício previdenciário para quem não consegue pagar o cartão do mês não é ineficiente — é invisível.

O problema não é que esses jovens não se importam com o futuro. O problema é que o presente os consome inteiros.

Da comunicação à presença

A resposta mais comum dos fundos de pensão a esse cenário tem sido comunicação: campanhas de conscientização, materiais de educação financeira, plataformas digitais mais amigáveis. Tudo isso tem valor. Mas trata o sintoma, não a causa.

O que faria diferença real é uma abordagem que reconheça a condição emocional e financeira desse participante como ponto de partida, não como obstáculo a superar com informação. Isso significa combinar educação financeira com suporte ao componente emocional do endividamento. Significa criar produtos e regras de contribuição que façam sentido para quem tem margem zero. Significa estar presente na conversa sobre dívida antes de estar presente na conversa sobre aposentadoria.

Fundos de pensão que conseguirem fazer essa transição, de gestores de benefício para parceiros de trajetória financeira, terão muito mais chance de ser relevantes para uma geração que, do contrário, vai chegar aos cinquenta anos sem nenhuma reserva previdenciária construída.

O endividamento da Geração Z não é um problema de comportamento individual. É o resultado de um sistema econômico que deixou esses jovens para trás, de uma herança cultural que normalizou o crédito como sobrevivência, e de um ambiente financeiro que ainda não aprendeu a falar com quem está tentando sobreviver ao presente.

A pergunta que fica para gestores de fundos de pensão, para lideranças de RH e para formuladores de política previdenciária é: estamos desenhando produtos, comunicação e estratégias para o jovem participante que gostaríamos que existisse ou para o jovem que realmente chegou?

Alexandre Muniz é sócio da Raya Advisory e co-criador da teoria Saúde Emocional Financeira.

Raya Advisory — Consultoria de investimentos independente, regulada pela CVM.