
Autor: Alexandre Muniz
Publicação: 06/03/2026
O Panorama do Endividamento e da Saúde Mental
Nos últimos anos, dois indicadores vêm avançando de forma consistente no Brasil, ainda que muitas vezes analisados separadamente. De um lado, o endividamento das famílias atingiu níveis historicamente elevados. De outro, os afastamentos por transtornos mentais e comportamentais bateram recordes sucessivos, culminando em mais de meio milhão de concessões de benefícios por incapacidade em 2025, segundo dados da Previdência Social. O que parece, à primeira vista, dois fenômenos distintos, um econômico e outro sanitário, pode, na verdade, revelar uma mesma dinâmica estrutural de sobrecarga que atravessa famílias, empresas e o próprio mercado de trabalho. Dados recentes da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada pela Confederação Nacional do Comércio, indicam que aproximadamente 80% das famílias brasileiras encerraram 2025 com algum tipo de dívida. Trata-se do maior patamar da série histórica. Além do percentual elevado de endividados, chama atenção o comprometimento relevante da renda com o pagamento de obrigações financeiras, bem como o avanço da inadimplência, que se aproxima de 30% das famílias, também em níveis historicamente altos. Em paralelo, o crédito se manteve caro por um período prolongado, com juros elevados impactando principalmente modalidades como cartão de crédito e crédito pessoal, que costumam incidir com maior peso sobre as camadas de renda mais baixa.
A Dinâmica Sistêmica entre Economia e Saúde
No mesmo intervalo temporal, o Brasil registrou um novo recorde de afastamentos por transtornos mentais. Segundo a Previdência Social, mais de 546 mil benefícios por incapacidade temporária foram concedidos em 2025 em decorrência de diagnósticos como ansiedade, depressão, transtornos de humor e outras condições psiquiátricas. O crescimento em relação aos anos anteriores é significativo, consolidando uma tendência de alta observada desde o período pós-pandemia. Não se trata de um desvio pontual, mas de um movimento consistente que coloca a saúde mental no centro do debate sobre produtividade, sustentabilidade econômica e risco social. A análise isolada de cada indicador pode conduzir a interpretações fragmentadas. O endividamento tende a ser explicado por variáveis macroeconômicas, como juros, inflação, desemprego e renda disponível. Já os afastamentos por saúde mental são frequentemente atribuídos a fatores organizacionais, pressão no ambiente de trabalho ou fragilidades individuais. No entanto, uma leitura sistêmica sugere que estamos diante de um fenômeno mais complexo, em que fatores econômicos e emocionais se entrelaçam e se retroalimentam.
O Impacto Psicológico e o Ciclo do Estresse Financeiro
O endividamento elevado não é apenas uma variável contábil. Ele altera o cotidiano das famílias. Quando parcela significativa da renda está comprometida com dívidas, sobretudo em um contexto de juros altos, instala-se uma pressão constante sobre o orçamento doméstico. A incerteza sobre a capacidade de pagamento, o medo da inadimplência, a renegociação recorrente de débitos e a necessidade de priorizar despesas básicas geram um estado contínuo de alerta. Esse estado não é neutro do ponto de vista psicológico. Ele produz estresse financeiro crônico. Segundo Mani, Mullainathan, Shafir e Zhao (2013), publicado na Science, a pressão financeira prolongada reduz a capacidade cognitiva disponível para decidir — a preocupação constante com contas e compromissos dificulta o planejamento de longo prazo e aumenta a propensão a decisões reativas, orientadas para o alívio imediato da tensão. A lógica do curto prazo passa a prevalecer sobre a estratégia. Em termos práticos, isso pode significar recorrer a crédito mais caro, postergar negociações, evitar enfrentar o problema ou, paradoxalmente, assumir novos compromissos financeiros como forma de ganhar tempo. O resultado é um círculo que tende a ampliar o desequilíbrio inicial. Quando esse estado de pressão se prolonga, seus efeitos deixam de ser apenas financeiros. O estresse persistente está associado ao aumento de sintomas ansiosos, alterações de humor, distúrbios do sono e perda de energia. A fronteira entre um problema financeiro e um problema de saúde mental torna-se difusa. Não se trata de afirmar que a dívida causa, isoladamente, um transtorno psiquiátrico, mas de reconhecer que ela pode atuar como fator de risco relevante, especialmente quando combinada a outras vulnerabilidades. Ao mesmo tempo, quadros de ansiedade e depressão reduzem a capacidade de concentração, organização e tomada de decisão, o que pode agravar ainda mais a situação financeira. Forma-se, assim, um ciclo bidirecional.
Consequências no Ambiente Laboral e Gestão de Riscos
Esse ciclo tem implicações diretas sobre o mercado de trabalho. Trabalhadores sob forte pressão financeira e emocional tendem a apresentar maior desgaste, menor engajamento e maior risco de adoecimento. Quando o quadro evolui para um afastamento formal por transtorno mental, a renda familiar sofre novo impacto. A redução de ganhos, ainda que parcialmente compensada por benefícios previdenciários, amplia a tensão orçamentária. A família que já estava endividada pode se ver em condição ainda mais frágil. O fenômeno deixa de ser individual e passa a ter dimensão macroeconômica, uma vez que envolve produtividade, custos empresariais e despesas previdenciárias. Nesse contexto, a discussão sobre riscos psicossociais no ambiente de trabalho ganha relevância estratégica. A atualização da NR-1, ao reforçar a necessidade de gestão integrada de riscos, incluindo fatores psicossociais, reconhece que saúde mental não é tema periférico. Ainda que a norma não trate especificamente de endividamento familiar, é evidente que trabalhadores não deixam suas pressões financeiras do lado de fora da empresa. O estresse financeiro acompanha o indivíduo e pode potencializar riscos já existentes no ambiente organizacional. Empresas que ignoram essa interseção tendem a lidar apenas com os efeitos, e não com as causas estruturais do adoecimento. Para as organizações, o aumento dos afastamentos por saúde mental representa custos diretos e indiretos: substituição de mão de obra, queda de produtividade, impacto sobre equipes e aumento da complexidade na gestão de pessoas. Sob essa perspectiva, iniciativas de educação financeira isoladas podem ser insuficientes se não considerarem o componente emocional do endividamento. Da mesma forma, programas de saúde mental desconectados da realidade econômica dos colaboradores tendem a atuar apenas na superfície do problema. A integração entre estabilidade financeira e suporte emocional passa a ser uma agenda estratégica.
Políticas Públicas e a Redefinição do Conceito de Risco
Do ponto de vista das políticas públicas, a coexistência de endividamento recorde e adoecimento mental crescente sugere a necessidade de abordagens integradas. Medidas de renegociação de dívidas, como programas governamentais de estímulo à regularização, são importantes, mas não resolvem, por si só, o problema estrutural da sobrecarga financeira. Ao mesmo tempo, ampliar o acesso a serviços de saúde mental é fundamental, mas insuficiente se as condições econômicas continuam pressionando as famílias. A articulação entre política econômica, proteção ao crédito, educação financeira qualificada e rede de apoio psicossocial torna-se cada vez mais relevante. A leitura sistêmica desses dados convida a uma reflexão mais ampla sobre a forma como entendemos risco no Brasil. Risco não é apenas volatilidade de mercado ou instabilidade fiscal. Ele também se manifesta na fragilidade financeira das famílias e na deterioração do equilíbrio emocional de milhões de trabalhadores. Quando quase 80% das famílias estão endividadas e mais de meio milhão de pessoas se afastam do trabalho por transtornos mentais em um único ano, não estamos diante de fenômenos isolados, mas de sinais de pressão estrutural. Reconhecer essa interdependência não significa reduzir a complexidade do problema a uma explicação única, nem atribuir responsabilidade exclusiva ao indivíduo ou ao sistema. Significa, antes, admitir que economia e saúde mental compartilham um terreno comum: a experiência concreta das pessoas. Endividamento e adoecimento são expressões de um contexto em que insegurança financeira, exigências crescentes e falta de margem de respiro se combinam. Talvez o desafio esteja em ampliar a lente com a qual analisamos esses indicadores. Em vez de perguntar apenas quanto as famílias devem ou quantos benefícios foram concedidos, pode ser mais produtivo perguntar que tipo de ambiente econômico e emocional estamos construindo. A maturidade de uma sociedade não se mede apenas pelo crescimento do PIB ou pela estabilidade de seus índices macroeconômicos, mas também pela capacidade de preservar a saúde mental de sua população enquanto enfrenta ciclos econômicos adversos. O crescimento simultâneo do endividamento e dos afastamentos por saúde mental sugere que estamos diante de um ponto de inflexão. A integração entre estabilidade financeira e equilíbrio emocional deixa de ser uma pauta complementar e passa a ser componente central de qualquer agenda séria de sustentabilidade econômica. Ignorar essa conexão é tratar sintomas de forma fragmentada. Enfrentá-la exige reconhecer que risco financeiro e saúde mental fazem parte do mesmo sistema e que a forma como lidamos com um inevitavelmente influencia o outro.
Alexandre Muniz é sócio da Raya Advisory e co-criador da teoria Saúde Emocional Financeira.
Raya Advisory — Consultoria de investimentos independente, regulada pela CVM.
Endividamento Recorde e Afastamentos por Saúde Mental: Dois Lados de um Mesmo Fenômeno Estrutural