
Autor: Alexandre Muniz
Publicação: 01/05/2026
O Valor Econômico publicou, em abril de 2026, uma matéria com um dado que não surpreende quem trabalha no mercado há tempo, mas que deveria parar qualquer pessoa para pensar.
Segundo estudo da FGV EESP com quase 1 milhão de brasileiros, em 96,4% dos dias de operação após março de 2020, o resultado agregado dos day traders foi negativo. No período pré-pandemia, essa taxa já era de 95,8%. O número de pessoas fazendo day trade cresceu 105% no mesmo período.
Ou seja: mais gente entrando, resultado piorando, e ninguém parando.
A pergunta que o mercado faz diante desse dado é: por que tantas pessoas continuam mesmo perdendo?
É a pergunta errada.
A pergunta certa é outra: o que faz uma pessoa inteligente, com acesso a informação, repetir um comportamento que a está destruindo financeiramente?
Não estou falando de iniciantes que não entendem o mercado. Estou falando do perfil traçado pela própria B3: homens de 43 anos em média, ensino superior completo, renda mensal de R$ 4,8 mil. Pessoas que sabem fazer contas. Que têm acesso às estatísticas. Que, em muitos casos, já viram os próprios resultados negativos mês após mês.
E continuam.
Na gestão de fundos de pensão, uma versão institucional desse mesmo fenômeno apareceu com frequência. Participantes com formação acadêmica sólida, profissionais experientes, que receberam suporte de consultores, palestras de educação financeira e acompanhamento da equipe interna do fundo, tomando decisões que contrariavam o próprio objetivo de aposentadoria. Sob pressão de curto prazo, de narrativa midiática, colocando em risco anos de acumulação que levaram décadas para construir.
A escala é diferente. O mecanismo é o mesmo.
A neurociência e a psiquiatria descrevem o day trade compulsivo como funcionalmente semelhante ao jogo patológico. O mecanismo é bem documentado: cada operação ativa o sistema de recompensa dopaminérgico, o mesmo circuito do açúcar, do álcool, das apostas. O ganho gera euforia breve. A perda gera anestesia temporária seguida de urgência para recuperar. O ciclo se retroalimenta independentemente do resultado financeiro, porque o que vicia não é ganhar, é operar. A própria incerteza do resultado é o gatilho.
Esse mapeamento é preciso. E é insuficiente.
Porque nomear o mecanismo não explica por que aquela pessoa específica desenvolveu essa compulsão enquanto outra, exposta ao mesmo ambiente, às mesmas plataformas, às mesmas promessas de ganho rápido, não desenvolveu. Não explica o que a operação representa além do dinheiro. Não explica o que ela resolve ou tenta resolver, que não tem nada a ver com o mercado.
A psicanálise faz essa pergunta de forma diferente.
Freud descreveu a compulsão à repetição não como irracionalidade, mas como lógica inconsciente: o psiquismo repete o que conhece, mesmo quando o que conhece dói, porque a repetição é uma forma de tentar elaborar o que ainda não foi elaborado.
O day trade compulsivo, nessa leitura, raramente é sobre dinheiro. É sobre controle. Sobre provar algo. Sobre uma relação com risco que foi construída muito antes de qualquer operação na B3.
Isso tem implicação prática direta para quem trabalha com gestão de patrimônio.
Um cliente que entra compulsivamente em operações de curto prazo não vai ser salvo por uma carteira melhor estruturada. A carteira vai ser sabotada de formas diferentes, mas com o mesmo resultado.
A variável que os modelos de risco não capturam é a história emocional do decisor. O que o dinheiro representa para aquela pessoa. Quais são os padrões que ela vai repetir independentemente do cenário de mercado.
Trabalhar essa camada com o mesmo rigor que se trabalha a alocação de ativos não é psicologia aplicada ao mercado financeiro como serviço adicional. É gestão de risco real.
E essa camada raramente tem a ver com falta de conhecimento técnico ou ausência de educação financeira. O perfil que chega ao day trade compulsivo e ao comportamento autodestrutivo com dinheiro de forma mais ampla, frequentemente é o oposto: pessoas que sabem, que estudaram, que têm acesso à informação. O que falta não é dado. É outra coisa.
O que a clínica revela, e que os modelos de risco ignoram, é que essas pessoas estão buscando psiquicamente algo que o mercado não pode entregar: controle sobre o incontrolável, reparação de uma perda que não foi financeira, prova de um valor que nunca foi reconhecido, ou simplesmente a anestesia de uma vida que pesa fora do pregão. O mercado vira palco para um enredo que começou muito antes, na família, na história de escassez ou abundância, nas primeiras experiências que definiram o que dinheiro significa no nível mais profundo.
Nenhum curso de finanças comportamentais resolve isso. Porque o problema não está no comportamento, está no que o comportamento está tentando dizer.
É por isso que fui sendo levado a um território que a maioria dos profissionais do mercado financeiro evita: a escuta. Não a escuta do mercado, essa todos praticam. A escuta do decisor. Do que ele traz para a mesa além dos números. Do enredo que ele está repetindo sem perceber.
Esse cruzamento entre psicanálise e gestão de patrimônio é o que orienta meu trabalho hoje, e é o tema de Dinheiro como Sintoma, lançado em maio de 2025 — um livro sobre o que o dinheiro revela sobre nós quando achamos que estamos apenas investindo.
O dado da FGV é mais um capítulo desse livro que o mercado escreve todos os dias, sem ainda saber ler.
Alexandre Muniz é sócio da Raya Advisory e co-criador da teoria Saúde Emocional Financeira.
Raya Advisory — Consultoria de investimentos independente, regulada pela CVM.
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