
Autor: Alexandre Muniz
Data: 13/09/2026
Um estudo inédito do Ibevar em parceria com a FIA Business School trouxe, em 2026, um dado que devia estar no radar de qualquer gestor de fundo de pensão: as apostas online se tornaram o maior fator isolado de endividamento das famílias brasileiras, com um coeficiente de impacto cinco vezes maior do que o do crédito, e três vezes maior do que o dos juros. Na mesma janela de tempo, o Raio X do Investidor Brasileiro 2026, da Anbima em parceria com o Datafolha, mostrou que 17% dos brasileiros apostaram online em 2025, contra 36% que investem em produtos financeiros. Entre a Geração Z, a proporção de apostadores sobe para 27%; entre os Millennials, para 22%.
Lidos separadamente, são dois dados preocupantes sobre fenômenos distintos. Lidos juntos, revelam algo que interessa diretamente a quem administra recursos de longuíssimo prazo: a disputa não é por onde o dinheiro vai. É pela relação das pessoas com o tempo.
O dado que pesa mais que o próprio crédito
O cenário de crédito no Brasil já era preocupante antes de as apostas entrarem na conta. Segundo a CNC, 80,2% das famílias brasileiras carregam alguma dívida, e 29,6% estão inadimplentes. O que o estudo do Ibevar com a FIA revela é que, dentro desse quadro já frágil, um fator relativamente novo passou a pesar mais do que o custo do próprio crédito.
Isso configura uma transferência silenciosa de renda: do consumo, da poupança e do planejamento, para um sistema desenhado em torno de recompensa imediata e estímulo constante. O varejo já sente esse efeito no caixa: queda no ticket médio, redução de itens básicos no carrinho, inadimplência subindo nas gôndolas. Para quem trabalha com acumulação previdenciária, a pergunta que fica é se esse mesmo mecanismo está corroendo, na ponta, a capacidade de contribuição e retenção dos participantes.
Não é sobre o produto. É sobre a relação com o tempo
A leitura mais imediata do dado da Anbima seria dizer que apostas competem com investimento. É uma leitura superficial. Investir exige aceitar lentidão: constância, disciplina, capacidade de adiar recompensa. Apostar oferece o inverso: emoção imediata e a sensação de que algo pode mudar agora.
Em um país onde 47% convivem com alto estresse financeiro e apenas 16% dos brasileiros não aposentados iniciaram uma reserva para a aposentadoria, o curto prazo se torna sedutor não por irresponsabilidade, mas por pressão real. Quando o presente pesa demais, o futuro perde força. E talvez o dado mais revelador de todos seja este: 20% dos brasileiros ainda enxergam apostas como uma forma de investimento. Isso não é desconhecimento sobre produtos financeiros. É a lógica de curto prazo disputando espaço com a lógica de longo prazo, e, neste momento, vencendo.
Por que educação financeira, isolada, não resolve
O ponto central do estudo do Ibevar é que a maioria das pessoas sabe, racionalmente, que está perdendo dinheiro nas apostas. Mesmo assim, continua jogando. Isso acontece porque decisões financeiras não são guiadas apenas pela lógica, mas por mecanismos como a ilusão de controle e o reforço intermitente, os mesmos padrões presentes em comportamentos aditivos.
Há também uma camada cognitiva que costuma passar despercebida nas análises de mercado. Mani, Mullainathan, Shafir e Zhao, em estudo publicado na Science (2013), mostraram que o peso mental de lidar com escassez financeira pode reduzir o desempenho cognitivo em cerca de 13 pontos de QI no curto prazo, um impacto comparável à perda de uma noite inteira de sono. Decisões sobre poupança, aposentadoria e risco são justamente decisões complexas, que exigem exatamente a capacidade cognitiva que o estresse financeiro consome primeiro.
Se fundos de pensão e patrocinadoras continuarem tratando o desafio da adesão e da manutenção previdenciária apenas como um problema de informação, mais cartilha, mais comunicado, mais campanha de educação financeira, vão continuar atacando o sintoma, não a causa. Conhecimento, por si só, não muda comportamento. O que muda comportamento é consciência, ambiente e desenho de intervenções que considerem o participante real, não o participante racional dos modelos atuariais.
O que está em jogo para a governança de risco das EFPCs
Para os fundos de pensão, o desafio deixou de ser apenas oferecer um bom plano, com boa rentabilidade e taxas competitivas. Passou a ser algo mais complexo: reconstruir a cultura do longo prazo dentro de um ambiente que, estruturalmente, conspira contra ela, do algoritmo das plataformas de apostas ao estresse financeiro crônico da força de trabalho.
Isso tem implicações concretas de governança de risco que ainda não aparecem em nenhuma planilha atuarial. Participantes sob pressão financeira e captura cognitiva pelo curto prazo tendem a portar riscos comportamentais mensuráveis: maior propensão a resgates antecipados, menor adesão a contribuições voluntárias, maior sensibilidade a decisões de alocação equivocadas em momentos de estresse agudo. Tratar o comportamento financeiro do participante como uma variável externa ao risco do plano é gerir apenas parte do risco real da carteira.
Da comunicação de produto à cultura de longo prazo
O movimento que os dois estudos sugerem, lidos em conjunto, é claro: sem endereçar a dimensão emocional e comportamental da decisão financeira, nenhuma estratégia de comunicação previdenciária vai competir de igual para igual com um sistema desenhado para explorar exatamente essa dimensão.
O verdadeiro concorrente da previdência complementar não é a bet. É a lógica do curto prazo, que opera em qualquer decisor sob pressão, independentemente do patrimônio ou do plano ao qual está vinculado. A pergunta que fica para quem governa esses recursos: sua entidade está construindo apenas produtos de longo prazo, ou está construindo também a capacidade dos participantes de pensar em longo prazo?
Alexandre Muniz é sócio da Raya Advisory e co-criador da teoria Saúde Emocional Financeira.
Raya Advisory — Consultoria de investimentos independente, regulada pela CVM.
Fontes
Pesquisa Ibevar/FIA Business School (2026); CNC — Confederação Nacional do Comércio; Raio X do Investidor Brasileiro 2026 — Anbima/Datafolha; Mani, A., Mullainathan, S., Shafir, E., & Zhao, J. (2013). Poverty impedes cognitive function. Science, 341(6149), 976-980.
O Verdadeiro Concorrente da Previdência Complementar Não É a Bet. É a Lógica do Curto Prazo